História da FIV

A medicina reprodutiva foi uma das áreas da medicina que mais evoluiu nas últimas 4 décadas, tornando possível a realização do sonho de milhões de famílias em todo o mundo. Estima-se que até o ano de 2012 mais de 4 milhões de crianças nasceram através das técnicas de reprodução assistida.

 
Fertilização In Vitro
 
Durante os últimos 40 anos, numerosas modificações e aperfeiçoamentos ocorreram nos tratamentos de reprodução humana, tornando as técnicas de reprodução assistida cada vez mais efetivas e ampliando sua utilização. A seguir, descreveremos cronologicamente e de maneira sucinta as principais realizações e modificações ocorridas na medicina reprodutiva.

Data do ano de 1884 a primeira descrição de inseminação intra-uterina (IIU) em humanos. Dr William Pancoast tratou um casal infértil através da injeção de sêmen de um doador na cavidade uterina de uma paciente e nove meses após nasceu uma criança do sexo masculino. Relatos dizem que dr Pancoast nunca disse à paciente o que ele havia feito e apenas alguns anos após, dividiu a informação com o marido da paciente.

Porém, apenas 25 anos após (a partir de 1909) as informações sobre IIU com uso de sêmen de doadores realizadas pelo Dr. Pancoast apareceram em jornais médicos e ele foi duramente criticado pelas suas ações.

No ano de 1937, um editorial na revista New England Journal of Medicine, escrito por John Rock, levantou a possibilidade da realização da FIV.

O ano de 1944, marca a primeira fertilização com sucesso de um óvulo humano. Dr. Rock e Dra. Menkin coletaram 800 óvulos nos 6 anos anteriores tentando sem sucesso a fertilizaçãoo de 138 deles. Entre fevereiro e abril deste ano, Menkin manteve o sêmen por um maior tempo em contato com o óvulo e obteve sucesso na fertilização. Porém, os doutores Rock e Menkin não tentaram implantar o embrião formado na paciente.

No ano de 1949 o Papa Pio XII condenou qualquer tipo de procedimento de fertilização de óvulos humanos fora do corpo humano. Apesar da resistência da Igreja Católica, o número de clínicas de infertilidade começou a crescer nos EUA.

No ano de 1951, o médico Landrum Shettles replicou os experimentos de Rock e Menkin no Hospital Presbiteriano de Columbia na cidade de Nova Iorque.

Em 13 de dezembro de 1954 uma corte no estado de Illinois considerou que os bebês concebidos pela IIU com sêmen de doador não eram legítimos. Porém, muitos outros estados rejeitaram esta conclusão, fazendo com que por volta de 1960, aproximadamente 50.000 bebês nascerem como resultado de IIU com sêmen doado.

No ano de 1965, o cientista britânico Robert Edwards, que vinha conduzindo pesquisas sobre fertilização sem sucesso há anos, chegou aos EUA e conheceu os doutores Howard e Geogeanna Jones. Eles tentaram fertilizar oócitos humanos in vitro, descrevendo estes estudos preliminares no ano de 1966 no American Journal of Obstetrics and Gynecology.

No ano de 1968, Robert Edwards conheceu o Dr. Patrick Steptoe, médico ginecologista da cidade de Oldham (Inglaterra). Dr. Steptoe havia desenvolvido uma nova técnica de cirurgia, chamada de laparoscopia, que permitiria a recuperação de oócitos humanos maduros. Em 1969, Edwards e Steptoe publicaram os resultados de seus experimentos com a FIV no jornal Nature. Porém, até o momento eles não haviam tentado a implantação doe embriões no útero materno.

Foi apenas no ano de 1973 que a primeira gestação através da técnica de FIV foi descrita pelos professores Carl Wood e John Leeton em Melbourne (Austrália). Infelizmente a gestação não evoluiu, tendo ocorrido um aborto precoce. Em 1976, Patrick Steptoe e Robert Edwards publicaram o relato de um caso de gestação ectópica após a transferência uterina embrionária.

Fertilização In Vitro

Finalmente, o dia 25 de julho de 1978 ficou marcado na história com o nascimento de Louise Brown, a primeira criança concebida após a FIV, na cidade de Oldham (Inglaterra). Os responsáveis pelo feito histórico foram os doutores Patrick Steptoe e Robert Edwards. Este último, viria a ser agraciado com o Prêmio Nobel de Medicina no ano de 2010 em reconhecimento ao seu grande feito para a humanidade.

No início dos anos 80, ocorreu a introdução das gonadotrofinas para a estimulação ovariana. Estes hormônios tornaram-se fundamentais durante os tratamentos de FIV para otimização dos resultados através da obtenção de maior número de oócitos por estímulo ovariano. No ano de 1982, Richard Fleming demonstrou pela primeira vez que os agonistas do GnRH (hormônio utilizada pelas pacientes no período de estímulo ovariano) poderiam ser utilizados durante o tratamento para evitar o surgimento da elevação do hormônio LH e controlar a estimulação ovariana.

Foi também no ano de 1982 que Suzan Lenz e Jurgen Lauritsen descreveram a aspiração oocitária transabdominal trans-vesical guiada por ultra-som com o intuito de substituir o procedimento laparoscópico. Neste mesmo ano, Ian Craft relatou uma gravidez após a transferência de gametas (óvulo e espermatozoides) para o útero materno

No ano de 1983, foi descrito na Austrália pelo grupo do professor Alan Trounson, o primeiro caso de gestação em uma mulher sem os ovários através da utilização de óvulos doados. Neste mesmo ano, o mesmo grupo descreveu o nascimento do primeiro bebê após a utilização de um embrião congelado e também a primeira gestação com a utilização de óvulos doados. Este ano também ficou marcado pela descrição da primeira aspiração oocitária via vaginal com o auxílio de ultrassom abdominal, pelo grupo de Norbert Gleicher.

Em 1984, na Califórnia, ocorreu o nascimento do primeiro bebê com a utilização de útero de substituição. Ocorreu a introdução dos análogos agonistas do GnRH nos protocolos de estimulação ovariana, o que fez com que ocorresse um maior aproveitamento do estímulo ovariano e uma menor taxa de cancelamento dos tratamentos.

Em 1984, ocorreu a primeira gravidez e nascimento da primeira criança após um tratamento de FIV no Brasil. O feito foi coordenado pelo Dr. Milton Nakamura.

Em 1985, Quinn e Warnes desenvolveram uma fórmula intitulada “Human Tubal Fluid” (HTF) que tenta mimetizar o ambiente in vivo ao qual o embrião é exposto.

Em 1986, foi descrito na Austrália a primeira gravidez e nascimento com a utilização de espermatozoide obtido cirurgicamente em um paciente com obstrução dos ductos espermáticos. Também foi descrita a aspiração folicular com agulha guiada por ultrassonografia transvaginal. Foi descrita a primeira gravidez após a transferência intra-falopiana de zigoto por via laparoscópica, pelo grupo de Paul Devroey. Ocoreu também o nascimento de gêmeos após a utilização de oócitos criopreservados, descrito na revista Lancet por Christopher Chen.

Em 1987, foi descrita a fertilização de oócitos humanos com a microinjeção de um único espermatozoide abaixo da zona pelúcida.

Em 1988, nasceram os primeiros bebês após a aspiração epididimária de espermatozoides em homem com agenesia congênita de vasos deferentes. Neste ano, faleceu Dr Patrick Steptoe que foi um dos pioneiros da FIV.

Em 1989, surgiu o primeiro relato de biópsia embrionária em período pré-implantacional e desenvolvimento da técnica de biópsia embrionária.

Em 1990, nasceu a primeira criança após a transferência de embrião congelado com a utilização da técnica de vitrificação embrionária. Descritas gestações de embriões biopsiados em período pré-implantacional. Primeira descrição de assisted haching em embriões humanos

Em 1991, primeira gravidez após a maturação in vitro de oócitos em um ciclo não estimulado. O primeiro relato sugerindo a utilização do antagonista de GnRH para prevenir a elevação prematura de LH e sua introdução nos procedimentos de FIV. Utilização de cateter de transferência embrionária que pode ser visualizado ao ultrassom.

Em 1992, descrição de sucesso da FIV e transferência embrionária após estimulação ovariana com o uso de FSH recombinante. Relato da primeira gravidez com a técnica de ICSI.

Em 1993, primeiro relato do uso da técnica de extração espermática testicular (TESE) e ICSI. Primeira gravidez e nascimento com o uso de FSH recombinante.

Em 1994, descrito o primeiro nascimento após maturação oocitária in vitro

Em 1995, descritas gestações com o uso de TESE e ICSI em casos de azoospermia não obstrutiva. O primeiro relato de biópsia embrionária para pesquisa de aneuploidia.

Em 1996, nasceu a ovelha Dolly, o primerio animal clonado, o que gerou diversos questionamentos éticos. Neste ano foi descrita a primeira gravidez com a utilização de espermatozoides testiculares criopreservados.

Em 1997, descrito o uso de TUNEL para a detecção de fragmentação de DNA espermático. Primeiros nascimentos de bebês originados de oócitos congelados e uso da ICSI.

Em 1998, David Gardner introduziu o meio sequencial e transferência em blastocisto. Primeiras gestações com cultura embrionária em meio sequencial e transferência em estágio de blastocisto.

Em 1999, primeiro nascimento após vitrificação oocitária. Neste mesmo ano, Natalie Brown tornou-se a primeira paciente nascida de FIV que tornava-se mãe, através de uma gestação natural.

Em 2000, ocorreu a primeira descrição de transplante de tecido ovariano após criopreservação.

Em 2002, primeiro nascimento após biópsia de blastocisto e PGD. Primeira descrição da aplicação clínica do CGH para PGD.

2003, primeira descrição do aumento da taxa de implantação após injúria endometrial com o uso de cateter de Pipelle.

2004, descrição do primeiro nascimento após transplante ortotópico de tecido ovariano criopreservado. Descrições de criopreservação em pacientes oncológicos.

Fertilização In Vitro

2010, aos 85 anos, Robert Edwards recebe o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em homenagem à sua consagrada técnica de FIV. Robert Edwards é considerado o “pai”do primeiro bebê de proveta do mundo.

A criopreservação de oócitos maduros é um método utilizado em mulheres em idade reprodutiva com o objetivo de preservar o potencial reprodutivo feminino. A criopreservação refere-se ao processo de resfriamento celular a temperaturas abaixo de 0°C com o objetivo de parar todas as atividades biológicas celulares e preservá-la para utilização futura. O advento da técnica de vitrificação oocitária talvez tenha sido um dos passos mais importantes dados pela medicina reprodutiva nos últimos anos. A vitrificação oocitária é um procedimento de fundamental importância para a manutenção da autonomia reprodutiva feminina, tornando possível que esta preserve seu potencial reprodutivo seja por uma indicação médica ou social.

Entre as indicações médicas, podemos citar casos de pacientes que serão submetidas à tratamentos oncológicos (quimio / radioterapia) que podem acarretar um prejuízo à função ovariana ou mesmo falência ovariana prematura (menopausa precoce); pacientes que passarão por tratamentos quimioterápicos para doenças imunológicas; pacientes que serão submetidas à cirurgias extirpadoras como em casos de cirurgias para endometriose ou outras doenças benignas ovarianas. Com relação à indicação social, ocorreria em casos nos quais por motivos pessoais ou profissionais a mulher deseja postergar ou mesmo não sabe ainda se desejará uma gestação no futuro. Nestes casos, a mulher submete-se ao procedimento para o congelamento de óvulos em um idade mais precoce (idealmente abaixo dos 36 anos) e caso no futuro não obtenha uma gestação natural e necessite de um tratamento de reprodução assistida, poderá utilizar estes óvulos congelados previamente.

A criopreservação oocitária e a utilização futura destes óvulos congelados pode aumentar em muito as chances de gravidez de uma paciente. Sabe-se que o relógio biológico feminino faz com que o passar dos anos diminua a reserva ovariana feminina (quantidade de óvulos que a mulher possui) uma vez que ela já nasce com todos os óvulos que ovulará durante toda sua vida até que chegue em um certo limite e esta entre na menopausa. Talvez ainda mais importante que a diminuição da reserva ovariana esteja o fato da piora da qualidade oocitária que também ocorre com o passar dos anos. Esta piora leva a uma menor chance de gravidez, maiores riscos de abortamentos e malformações/síndromes com o avanço da idade. Esta queda da reserva e piora da qualidade passa a ser mais importante após os 36 anos de idade.

A criopreservação de células e tecidos não tornaram-se realidade até meados do século 20. Os esforços iniciais para a criopreservação foram inefetivos inicialmente porque as técnicas até então utilizadas com simples resfriamento celular levavam à danos celulares. Na década de 1940, foi descoberto que o glicerol poderia proteger o espermatozoide das lesões durante a criopreservação e descongelamento. O primeiro nascimento descrito de sêmen criopreservado ocorreu no ano de 1953.

Na década de 1970 foram identificados outras substâncias crioprotetoras e com o desenvolvimento e aperfeiçoamento nas técnicas de congelamento foi possível fazer com que o congelamento ocorresse de maneira lenta que permitisse a desidratação celular para minimizar a formação de cristais de gelo intra-celular. Estes avanços levaram ao nascimento do primeiro nascimento com a utilização de embrião congelado no ano de 1984.

No ano de 1986, o primeiro nascimento após a utilização de óvulo congelado ocorreu.

Durante a década passada foi desenvolvida uma técnica alternativa ao congelamento lento: a vitrificação. Este é um processo de criopreservação, utilizando altas concentrações iniciais de crioprotetores e o resfriamento ultra-rápido, , congelando o material em um estado vítreo que gera um dano celular bem menor do que o ocorrido com as outras técnicas de tratamento. Atualmente, existem evidências de que as taxas de fertilização e as de gravidez são similares entre os óvulos congelados e embriões à freco. Segundo a Sociedade Americana de Reprodução, as evidências científicas.